coro
de carcarás

Boal por César Vieira

Conheci Augusto Boal por volta dos 62 e 63 quando ele estava inciando sua carreia no teatro de Arena, no centro de São Paulo. Em 1964, ele foi meu professor na Escola de Arte Dramática na Luz, no prédio onde hoje está abrigada a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A partir daí estreitamos os laços de amizade. Mais tarde, não mais através do teatro, mas como advogado, tive a oportunidade de defendê-lo em um caso que ganhou notoriedade e foi um importante momento da luta contra a ditadura .

Boal, por seus ideais, foi perseguido, preso e torturado, muito torturado. Quando ele saiu da prisão foi para o exílio. Passou muito tempo na Argentina e viajou ainda por outros países, Peru, Estados Unidos e França.  Foi então que, em determinado momento, quando ele estava na Argentina, terminou a validade de seu passaporte e o governo da ditadura se recusou a renovar. Dessa forma Boal não podia sair do país, estava preso. Aí entramos na justiça, recorremos ao Supremo Tribunal Federal que deu ganho de recurso ao Boal. Isso foi muito importante, isso desencadeou um processo mundial, porque havia muitos outros brasileiros nessa situação. Nosso escritório recebeu mais de 800 pedidos e conseguimos mais de 800 vitórias.

Com o retorno do Boal ao Brasil, tomamos conhecimento de seu trabalho e de suas teses revolucionárias sobre o Teatro do Oprimido. Essa teoria tornou-se um marco não só no Brasil, como no mundo todo. Acho que se ele tivesse nascido num país como a França ou os Estados Unidos suas idéias, suas teses teriam uma relevância ainda maior; aqui, embora seja reconhecido, nunca foi devidamente valorizado.

Nós mantivemos contato até hoje. Ele inclusive fez o prefácio dos livros comemorativos dos 40 anos do Teatro União e Olho Vivo [grupo que César Vieira dirige]. E pra gente isso foi uma grande honra, porque a gente tem o Boal como um mestre. O Boal pregava, essencialmente através do teatro, um mundo diferente desse que ta aí, pregava um mundo em que todos tivessem oportunidades iguais, sem patrões. E respeitamos ele porque além das teses, de toda sua teoria, ele praticava. Os grupos do Teatro do Oprimido, que se difundiram pelo Brasil e pelo mundo, são, a exemplo do Olho Vivo, voltados para o povo, para os trabalhadores e se encontram nessa linguagem simples, porém transformadora, sabendo valorizar a força revolucionária que existe no teatro popular.

Cesar Vieria (Idibal Piveta) é diretor do Teatro União e Olho Vivo, grupo com mais de 40 anos de resistência e luta; também é reconhecido advogado de presos políticos, ontem e hoje.

voltar