Boal: do Arena para o mundo
(1931-2009)
por Coro de Carcarás
O teatro, a música, as artes, o cinema, a cultura brasileira como um todo, durante os anos de 1960, assumiram um caráter bastante inovador revolucionando as velhas estruturas da cultura oficialesca, baseada na simples cópia ou paródia da cultura burguesa européia. Sem dúvida, O Rei da Vela, peça encenada pelo teatro Oficina em 1967, retomando Oswald de Andrade, e o filme Terra em Transe de Glauber Rocha do mesmo ano foram momentos decisivos dessa virada, ou então, dessa síntese que se fazia num caldeirão efervescente de levante da juventude e dos trabalhadores.
No entanto, anterior a O rei da vela, anterior à câmera na mão glauberiana havia um movimento que foi construído ao longo de quase uma década e que se traduzia nos CPCs (centros populares de cultura da Une), nos teatros de protesto do Arena e do Opinião e nos primeiros festivais musicais e na ruptura com as velhas instituições culturais brasileiras.
Nesse movimento anterior à explosão de 1967-68, neste movimento de gestação da ruptura, um nome foi fundamental: Augusto Boal. Juntamente com Guarnieri, Vianhinha e Zé Renato, Boal criou uma cena teatral e artística oposta ao teatrão do TBC. O teatro de Arena, no centro de São Paulo tornou-se um centro de estudos e experimentação de uma nova linguagem teatral e política.
Deixava-se de lado os temas completamente alienados do TBC, partia-se para um enfrentamento da realidade da luta de classes no Brasil. Assim vieram Eles não usam black-tie, Arena conta Zumbi, Arena conta Tiradentes e O feira paulista de Opinião. Um novo público ocupava o teatro – jovens estudantes, militantes dos partidos. Esse foi um momento decisivo para o surgimento dos CPCs.
Boal era personagem central dessa revolução e onde fosse detonava novas explosões. Tanto é assim, que, indo para o Rio de Janeiro montou o espetáculo Opinião, marco definitivo da arte política e de protesto contra a sociedade burguesa brasileira e o golpe militar. Nesse espetáculo, que lançaria Maria Bethânia cantando Carcará, música e teatro, notícias de jornal e ficção se fundiam!
Com o acirramento da ditadura, em 1968, com o AI-5, todas as manifestações de uma arte revolucionária foram perseguidas. Boal descreve vários momentos desse período em sua auto-biografia Hamlet e o filho do padeiro. Lembra que naquele ano de 1968, o exército sequestrou Norma Bengell no camarim quando encenava Plínio Marcos; conta também que seu grupo, após ser atacado com bombas de gás, entrava em cena, todas as noites, escoltado por brigadas de jovens universitários; lembra também do episódio de RodaViva, em que o CCC espancou os atores.
Boal conta que chegou-se a um ponto em que era impossível fazer qualquer coisa. Vai para o exílio e, a partir de então desenvolve um segundo momento fundamental de sua obra teatral-política: o teatro do oprimido. Boal percebe que o teatro como mera representação do mundo esgotava-se. Era preciso desenvolver uma linguagem nova que chegasse naqueles que estivessem dispostos a transformar o mundo, que chegasse nos estudantes e trabalhadores e que lhes fosse uma arma de combate.
O Teatro do Oprimido foi exatamente essa arma. Sua essência era bastante simples: qualquer um pode ser ator desde que trate dos problemas e dos dilemas impostos pelos conflitos reais de seu cotidiano, da luta de classes. A teoria do Teatro do Oprimido correu o mundo e, hoje, após tantos anos, é reconhecida e aplicada em vários países.
Boal sempre manteve-se fiel ao seus ideais, aos princípios que fizeram o teatro de Arena e o show Opinião, e, mais tarde, o teatro do Oprimido. Neste início de maio, Boal faleceu, aos 78 anos, mas suas idéias retornam, com grande força, diante da crise economica que se abate sobre todos nós. Novamente, o teatro pode ser uma arma de combate, e as palavras do coro do Arena devem ser recitadas em praça pública:
Dez vidas eu tivesse,
dez vidas eu daria.
Pelo bem da liberdade,
nem que fosse por um dia
leia o texto - homenagem de César vieira do teatro união e olho vivo à augusto boal
legenda das imagens por ordem:
augusto boal
arena conta tiradentes
chapetuba futebol clube
folheto arena conta zumbi
maria bethânia cantando carcará
