Nas últimas duas semanas, o Coro de Carcarás interveio nas festas e atividades das calouradas de algumas faculdades de São Paulo.
Na Metodista - São Bernardo, a intervenção do coro na praça central reunindo estudantes da filosofia e do jornalismo, foi fato inusitado, já que lá pouco resta de liberdade para atividades político-culturais. Na PUC, aonde também as festas são proibidas, a intervenção na prainha teve força enquanto crítica aos rumos da universidade. Na Sociais e na Letras da USP, o coro chegou intervindo nas festas trazendo um incomodo à passividade, fazendo grande parte dos estudantes entrar em ato, como um grande coro teatral-musical. Fechando a calourada da USP, na atividade chamada pelo grêmio da arquitetura, o coro de carcarás construiu um grande arrastão de tambores pelo centro de São Paulo, ocupando as ruas com teatro, música e poesia.
A intervenção Vladimir no país da gramática, encenada em todos esses locais, é produto de um breve roteiro escrito pelo próprio grupo, a partir de colagens de versos do grande poeta da Revolução Russa Vladimir Maiakovski e fragmentos da peça A Morta de Oswald de Andrade. O roteiro futurista foi criado para ser encenado nas ruas, escolas e universidades, ser filmado e transmitido para todo o Brasil pelos telégrafos eletrônicos e fazer explodir a revolta contracultural da juventude!
A JAULA
Ou
Vladimir no país da gramática
- Ato antropofágico em 03 quadros
“QUADRO 1
BANQUEIRO
Alto lá, você da blusa-amarela!
VLADIMIR
Meu nome é Vladimir e venho do leste.
Venho em busca do país da gramática,
Que dizem jazer depois dessa porta
BANQUEIRO
O que pode me oferecer em troca d’eu liberar tua passagem?
VLADIMIR
Das letras e sinais tipográficos
o senhor é o porteiro?
BANQUEIRO
Não, Vladimir, sou o credor deste lugar.
É que o país já é uma senhora idosa,
De pernas arqueadas
Que sem meu anteparo tombaria morta
Já não há mais o vigor
No país da gramática
Dos versos-suícidas
Os poemas-petições
Caíram em desuso
Nenhum verso é mais o derradeiro
Nenhum amor faz arder os corações
As engrenagens
enferrujaram
E as letras não têm mais a força
De trombetas-alarmes da humanidade
Eu
Um banqueiro ilustrado
um amante das letras
um credor ávido por novas composições
Um fiel seguidor das interjeições
Eu
financio a cultura!
E faço deste lugar um grande negócio:
Da tipografia futurista um observatório
Dos balbucios dadá um salão de festas
Do soneto à mulher amada, um cartão postal
E do poema homérico, uma novela das 8
Por isso,
a reconstrução do país da gramática
de instituição falida
em grande mercado de imagens e ilusões
será minha obra e
a sua,
rapaz da blusa amarela!
VLADIMIR
Suas palavras reluzem mais que ouro,
Mas eu vim até o país da gramática
Para estudar aquilo tudo que não tem
Segundo suas palavras
Mais brilho algum
Sou eu também
um antiquário de sonhos?
BANQUEIRO
Para que estudar essas velharias?
Deve-se revirá-las
Até encontrar nelas
Alguma utilidade
Mercantil, é claro!
Caso contrário devolva-as
para o lugar de onde nunca deviam ter saído:
as catacumbas líricas deste lugar!
VLADIMIR
Não vejo razão para eu prosseguir!
Sou jovem,
Não poderia viver como zelador-revisor
De um parque de diversões tipográficas!
BANQUEIRO
Vladimir
Não cubra os olhos com idealismo,
É o mesmo que vestir uma nuvem com calças!
Um dia, os poemas-petições
Os sonetos do amor demais
E a lírica épica
Quiseram por abaixo as regras e normas gramaticais
Lutaram contra o formalismo e criticaram projetos como o meu
E é por isso mesmo que hoje isto daqui é uma senhora que ninguém quer saber se está viva ou morta.
Sem extremismos,
A juventude é ainda um livro de páginas em branco
As letras que traz consigo ainda são por demais frágeis
Passíveis de serem reescritas
Com o colírio da prudência
Lave seus olhinhos
Vagar errante como um poema sem autoria?
Crescer fora das bibliografias oficiais?
Isso, caberia a um paria
A uma aberração tipográfica!
VLADIMIR
Que fazer?
BANQUEIRO
Entregue a mim
a juventude de sua poesia
Permita que eu controle
a alma dos versos que jorram de tua cabeça
E assim, em troca,
terá
uma carreira próspera
no país da gramática
e ponto”
(...)
centro de São Paulo, dia 15 de janeiro, 2009
AB
Em breve, veja todo o roteiro no FILME!
Veja as fotos das intervenções na calourada
Leia o texto O poeta da Revolução, sobre Maiakovski