E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O poeta russo Vladimir Maiakovski que viveu durante a Revolução Bolchevique de 1917 na Rússia, é um dos grandes artistas de seu tempo. Com versos e composições audaciosas, escreveu poemas próprios para a declamação em reuniões públicas, colocando abaixo as tradições literárias e a cultura burguesa, sonhou fazer a nova arte futura, à altura da revolução que via acontecer.
Maiakovski e sua geração deixaram os círculos acadêmicos, os museus e os cafés e foram para as ruas, as praças e as fábricas de Moscou levar uma poesia completamente inovadora àqueles que lutavam dia-a-dia pela revolução. Maiakovski ao lado de poetas e artistas de vanguarda como A. Rodchenko seguiam a máxima “não há conteúdo revolucionário, sem forma revolucionária”, assim embora fosse recitar sua poesia para os operários e soldados bolcheviques, recusava-se aceitar as fórmulas poéticas já conhecidas, os esquemas e temas desgastados “ao gosto do público”. Para Maiakovski a revolução em curso, ou seja, um novo conteúdo que despontava no horizonte, exigia uma nova forma, novos padrões estéticos.
Da mesma maneira que buscava uma nova forma, queria que sua poesia não cantasse a vida apenas, mas que antes de tudo a transformasse. Assim, acreditava que sua poesia não seria apenas mais um estilo literário. Seria um novo modo de se fazer poesia, na medida em que seus versos deixariam de representar a vida, sendo eles mesmos um marco da nova vida.
Como conta Maiakovski, logo cedo tomou contato com panfletos bolcheviques trazidos às escondidas por sua irmã mais velha. Alí encontrou pela primeira vez o que chamou de verdadeira poesia, animando-o a ingressar no partido de Lênin ainda com 15 anos.
Em seus primeiros poemas de inspiração no futurismo de Marinetti, escreveu sobre os acontecimentos urbanos e sobre sua paixão pelas mulheres. Foi então que a revolução de Outubro de 1917 explodiu e sua poesia cada vez se aproximou da luta revolucionária. Em seus versos, a metáfora e imagens das letras, versos, rimas e estrofes como soldados e destacamentos de um exército imaginário, um exército das artes dão um pouco a idéia do que é a poesia de Maiakovski.
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
O poeta nunca se rendeu. Após a ascensão de Stálin, quando Lênin morreu e Trotsky passou a ser perseguido, os poetas e artistas de vanguarda começaram a sofrer todo tipo de censura e reprovação. O processo de contra-revolução repercutia em todas as esferas da sociedade: enquanto a oposição de esquerda de Trotsky era perseguida, leis de conduta e manuais eram impostos ao poetas. A liberdade poética que se iniciou com a revolução, agora era substituída pelo realismo socialista.
Maiakovski preferiu o suicídio à colaboração com a censura oficial, com um tiro no peito deixou a vida em 1930. Em seus últimos poemas, Maiakovski lançou seu exército das artes para um combate incansável contra a burocratização e a censura estalinistas. Suas estrofes-canhões, suas rimas-bombas foram a artilharia pesada que despejou contra Stálin e sua camarilha. Ainda que tenha deixado a vida prematuramente, seu exército vive através dos séculos, inspirando legiões de jovens em todo o mundo.
(...)
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
dos melífluos enxurros:
por cima
dos opúsculos líricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através
dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
(...)
Desdobro minhas páginas
– tropas em parada,
e passo em revista
o front das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo
figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
– glória –
se arraste
após os gênios,
merencória.
Morre,
meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
entre nós todos, –
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
varejai vossos léxicos:
do Letes
brotam letras como lixo –
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós,
geração de saudáveis, –
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
fossilcoleante.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
.......pelo qüinqüênio afora(2).
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara,
e basta, –
para mim é tudo.
Ao Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
.todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.
Maiakovski por Jakobson
Em A geração que esbanjou seus poetas, o crítico literário Roman Jakobson, amigo do poeta, escreve sobre a poesia e o suicídio de Maiakovski . Buscando decifrar o “eu” de Maiakovski, Jakobson escreve:
Em geral, o “eu” do poeta não se esgota nem se deixa abarcar pela realidade empírica. Maiakovski passa numa de suas “inúmeras almas”. “O espírito implacável da revolta eterna”, o espírito irresponsável, sem nome nem patronímico, “simplesmente um homens dos tempos futuros” reveste-se de seus músculos. “Sinto que sou pequeno demais para mim mesmo. Alguém teima em escapar de mim”. A angústia diante dos limites fixos e estreitos e o desejo de superação dos quadros estáticos constituem um tema que Maiakovski varia sem cessar. Nenhum curral no mundo poderia conter o poeta e a horda desenfreada de seus desejos. “Arrasto o jugo diário, oprimido no curral terrestre”, “A terra maldita agrilhou-me”, a tristeza de Pedro, o Grande, é a de um “prisioneiro acorrentado em sua própria cidade”, o gado das províncias escapa “das zonas delimitadas pelo governador”. A grade da prisão transforma-se, nos versos de Maiakovski, em masmorra do mundo, destruída pelo ímpeto cósmico, “pelas irisadas fendas do ocaso”. O apelo revolucionário do poeta é dirigido “ a todo aquele que se sente oprimido e que não suporta mais”, “a quem se afligiu porque os laços do meio-dia são apertados.” O “eu” do poeta é um aríete que golpeia o Futuro proibido; é a vontade “lançada além do limite derradeiro” para a encarnação do Futuro, para a plenitude absoluta da existência: “é preciso arrancar alegria ao futuro”.
Outro elemento que parece ser fundamental na obra e na vida de Maiakovski segundo Jakobson, é a luta contra a vida cotidiana, sempre buscando sonhar e apontar com um novo futuro aos homens. E assim continua,
Opondo-se a esse impulso criador para a transformação do futuro, há uma tendência à estabilidade de um presente imutável que se enche de trastes estagnados, que sufoca a vida segundo padrões estreitos e rígidos. O nome em russo para esse elemento é byt, a vida cotidiana.
O fantasma de uma ordem mundial imutável – da vida cotidiana universal acomodada em apartamentos – sufoca o poeta. “Surdo, o universo dorme.”
A essa força insuportável deve se opor uma insurreição sem precedentes, para a qual ainda não existe nome. “A revolução privará o czar de seu título. A revolução lançará nas padarias a fome das multidões. Mas que nome lhe darei?” Os termos da luta de classes não passam de analogias convencionais, de símbolos aproximados; são apenas um plano entre outros, pars pro toto. O poeta, testemunha “das peripécias de combates não acontecidos”, reinterpreta a terminologia habitual. Nos esboços do poema “150.000.000” dão-se as seguintes definições: “Ser burguês não é ter capital e esbanjar dinheiro a rodo. É ser o calcanhar dos mortos na garganta dos jovens, é a boca tapada por pelotas de gordura. Ser proletário não significa andar sujo, ser aquele que faz girar as fábricas. Ser proletário é amar o futuro, que fará explodir a sujeira dos porões – acreditem”.
* o texto O poeta da Revolução escrito pelo Coro de Carcarás e o "box" Maiakovski por Jakobson, foram publicados na seção de Contracultura do jornal Transição Socialista em fevereiro de 2009.