a morta
No país da gramática
Há um coro de preto, são os VIVOS e um coro branco, são os MORTOS.
Vivos- Abaixo a autoridade dos ociosos! Abaixo!
Queremos o verbo criador da ação!
Mortos- Não pode! Não pode!
Quem poderá destruir uma frase feita?
Vivos- Abaixo as frases feitas! Abaixo as frases ocas! Abaixo as frases mortas!
Mortos- Oh! Ah! Ih!
Descem o morro correndo e lá embaixo cruzam no espaço com os vivos.
Mortos- Massa desprezível de pronomes mal colocados.
Há uma quebra na cena para um comentário...
O Turista- Quem são eles?
O Polícia- Vivos e mortos.
O Turista- Vivem juntos?
O Polícia- O mundo é um dicionário. Palavras vivas e vocábulos mortos. Não se atracam porque somos severos vigilantes. Fechamo-los em regras indiscutíveis e fixas. Fazemos mesmo que estes que são a serenidade tomem o lugar daqueles que são a raiva e o fermento. Fundamos para isso as academias...os museus...os códigos...
O Turista- E os vivos não reclamam?
O Polícia- Mais do que isso. Querem que os outros desapareçam para sempre. Mas se isso acontecesse não haveria mais os céus da literatura, as águas paradas da poesia, os lagos imóveis do sonho.Tudo que é clássico, isto é, o que se ensina nas classes
Volta a cena de conflito entre os dois coros.
Vivos- Destruir os mortos que paralisam a vida!
Mortos- Destruir uma frase feita? Jamais!
Vivos- Abaixo as frases feitas! Abaixo as frases ocas! Abaixo as frases mortas!
Mortos- Chamem o juiz! Chamem o juiz!
Lá em cima, aparece o juiz.
Todos- O juiz!
Mortos- (orgulhosos)É um gramático!
Vivos- (irônicos)É um juiz de classe!
O juiz agradece a manifestação.
Vivos- Já conhecemos o julgamento, é contra nós!
O juiz- Silêncio! Julgarei segundo os cânones.
Vivos- Os cânones mortos.
O juiz- Começai a exposição do pleito. Sou todo ouvidos!
Mortos- (avança em direção ao juiz, cultuando-o)
Culto aos mortos! Culto aos mortos! Onde já se viu destruir um cadáver! Senhor juiz, a humanidade levou séculos para construir essa frase “Viva a gramática”. Como derrogá-la? Por quê derrogá-la?
Neste momento o juiz desenrola a faixa “viva a gramática”, que vai até o chão,aonde estão os dois coros.
Vivos- Nós estudamos para alimentar cadáveres!
Tudo que produzimos vai para a sua boca insaciada...
Vamos queimá-los! Queimemos os cadáveres!
O juiz- Esperai! Esperai a sentença. Tragam aqui o livro.Tudo está no Livro. Vamos ver. De-vo-ta-men-to...purificação!...Está aqui, achei! Os-mor-tos-go-ver-nam-os-vi-vos! (Aclamações e protestos)
Mortos- Muito bem! Muito bem!
Devemos seguir o que está escrito! Devemos seguir os cânones!
Mortos- Os mortos governam os vivos.
A charanga dos conservadores de cadáver, MORTOS, congela a cena para conduzir o juiz em triunfo. Os cremadores, VIVOS, se mantém, fazendo a quebra da representação.
Todos-O anti-acadêmico Oswald de Andrade escreveu A Morta no ano de 1934.
Suas palavras permanecem vivas e
incomodam a toda burocracia acadêmica,
desafiando o conformismo estudantil e
a policia universitária!
“A justificativa da poesia perdeu-se em sons e protestos ininteligíveis. Bem longe dos chamados populares. Agora, os soterrados, através da análise, voltam à luz, e através da ação, chegam às barricadas. As catacumbas líricas ou se esgotam ou se desembocam nas catacumbas políticas.”
Programas da chapa que antes eram parte do figurino, presos nos atuadores, agora, são arrancados e distribuídos ao público ou então abertos e expostos como jornais. O coro dos Vivos se transfigura no coro da chapa, ato dramático em ato político.
Todos-
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