A PONTE de Zé Celso
O texto abaixo é um fragmento do livro PRIMEIRO ATO, de Zé Celso Martinez Corrêa, especificamente da entrevista “Don José de La Mancha”, publicada em 1972. Na entrevista Zé Celso conta a experiência do grupo de teatro Oficina ao realizar uma viagem pelo Brasil fazendo o trabalho chamado “Trabalho Novo”.
Quando houve o ataque do CCC, quando fomos proibidos de tocar nas pessoas, de olhar para o público, tivemos que recuar para o palco, voltar para o teatro tradicional que para nós já estava morto. Calavam nossa boca para que não disséssemos que as coisas estavam morrendo. As coisas nem por isso deixaram de morrer; morreram de vez. É o dia que você faz o último dia de casa no teatro... como é que chama? Você enterra a peça. Foi um grande enterro de tudo... Mas no momento em que você enterrava tudo, você já estava fazendo por aí mesmo a apologia de um possível caminho novo. Era maravilhoso, era necessário um caminho inteiramente novo.
(...)
Nós estávamos tentando preparar um espetáculo mais elaborado e finalmente optamos por Mandassaia. A cidade era isolada por um rio e estava óbvio que se as pessoas se comunicassem entre si poderiam construir uma ponte e superar aquele problema enorme de descontato total. Era uma cidade até meio maluca; as pessoas viviam tão retiradas que só por isso já eram excepcionais, viviam completamente cortadas da região.
Então fomos fazer um espetáculo lá. Foi o espetáculo mais lindo que fizemos até hoje. O mais bonito, um dos mais elegantes. Era em sete partes. Tínhamos marcado sete pontos em sete locais onde se passaríam as ações do espetáculo. Mesmo lá onde não pudéssemos ser assístidos pela população nós marcávamos. Isso, entrando logo na cidade, em silêncio, e marcando aqueles sete pontos que intrigavam todo mundo. Chegamos num domingo à tarde, sem termos avisado antes. Arregaçamos as calças, tiramos os sapatos, atravessamos o rio. Chegamos lá pelas quatro horas. Marcamos as sete cruzes dos sete atos, baseados em sete idéias sobre os sete usos do bastão. Primeiro, a idéia de morte: o primeiro ponto era o cemitério. Morte e ressurreição ao mesmo tempo. No primeiro uso do bastão ressuscitávamos, mas cegos. O segundo uso era o tato. O terceiro, a união: no centro da praça nos encontrávamos. Fiquei no meio da praça com o bastão e todo mundo me tocando... A cidade se encontrava no centro, de tal maneira que, quando todos nós nos encontrávamos segurando o bastão, recebíamos o milagre da visão. União e visão. Depois da união, partíamos para o oposto, a divisão. Dividíamos a cidade anunciando que iria acontecer uma série de coisas, iria haver uma guerra, a cidade seria dividida... Depois partimos para o uso do bastão como ponte, como contato: era necessário entrar em contato com outras cidades, outros lugares. Utilizamos também o bastão como defesa: ao mesmo tempo em que você constrói a ponte, você não deve deixar entrar qualquer um, você tem que se defender. O último uso era como arma, para destruir o inimigo.
No momento da ponte foi uma ligação total, a cidade inteira foi construir a ponte. A nossa primeira idéia era a de utilizar um coqueiro. Fomos derrubar um, imenso, que tinha lá na beira do rio. Chegando perto, vimos que ele estava protegido por uma cerca de arame farpado, mas a descontração era tal que os caras estavam prestes a botar tudo "abaixo mesmo! Quando sentimos que a barra ia pesar, fomos para frente da cerca, proteger a árvore... Aí perdemos a confiança da cidade por umas boas horas. Até que um cara, o Roberto Duarte, veio de longe rolando uma pedra (não tinha pedra perto do rio). Ele vinha rolando a pedra como um penitente, uma pedra pesadíssima; ele vinha rolando aquilo sozinho e não queria a ajuda de ninguém. A persistência dele foi impresssionando todo mundo. Eu, no meio, já estava desesperado, já estava pronto para desistir. Falei: "Não! realmente isso não dá pé, não tem mais sentido, é um absurdo!" E, de repente, o próprio grupo, todos, as pessoas, todo mundo carregando pedras! Um querendo carregar uma maior que a do outro. Uma loucura! Pedras enormes... Bom, aí saiu! A ponte ia ficando pronta e nós fomos inventando uma cançãozinha e a cidade toda aderiu à canção... Fomos à casa do sanfoneiro, cantamos o começo da canção para ele, ele completou e veio com o acordeão, cantando e tocando. Uma canção de trabalho, que todo mundo começou a cantar... a cidade toda, o acordeonista, um aqui, outro ali, uma coisa maravilhosa! Todo mundo trazendo pedra e fazendo aquela corrente... Ali, a informação do nosso trabalho foi perfeitamente assimilada, compreendida.
Eu me sentia muito bem, sentia uma comunicação realmente humana, um calor, um contato real com os outros, coisa que não se conseguia por outros meios. Quando você chega por outros meios e cai nesse mundo mais místico não adianta nada, porque você é de outra cidade, de outra classe social... Nós encontramos alguns pontos de contato assim, através do terreno místico, do humano mais profundo; afora isso, tudo nos separava.
Mas o que é esse misticismo? Qual é o seu código? O que é essa espera? O que está contido no messianismo? O fermento de tudo, é lógico! O que tem de mais violento nele está aí mesmo. A gente assume isso e dá uma virada que objetiviza a coisa; quer dizer, o "milagre" passa a ser o quê? O milagre passa a ser a construção de uma ponte. Construída por nós e por eles, uma coisa concreta, necessária... E isso quer dizer mil coisas. Uma ponte, inclusive, é cara. Porque a ponte que a gente fez é uma porcaria de ponte. E a gente dizia: o rio vai levar essa ponte, mas é preciso construir uma mais forte. Eles entendiam que aquilo era uma ponte entre nós e eles... Foi um acontecimento, não foi "teatro".