coro
de carcarás

A JAULA –
o vôo do carcará do sertão de Mandassaia à metrópole
de São Paulo

Retomamos aqui texto escrito pelo grupo há quase dois anos, publicado em 12 de março de 2007. O texto A JAULA conta o ato total realizado pelo grupo apartir de uma intervenção teatral, que simbolizou a (re)fundação do grupo e o surgimento do nome Coro de Carcarás.

Leia também texto complementar, A PONTE do diretor Zé Celso, sobre a experiência do Oficina no sertãobrasileiro na década de 70, experiência que inspirou o ato total do Coro de Carcarás.



Zé Celso comenta, em um de seus textos, a experiência realizada pelo Oficina na cidade de Mandassaia nos anos 70. Naquela época, o grupo radicalizara quanto ao fim da representação, anunciando a morte do teatro burguês. Abandonava a caixa-escura para percorrer o Brasil em busca de um sentido para a produção cultural. Na pequena cidade de Mandassaia, o Oficina realizou uma experiência fundamental: a partir da encenação do grupo envolvia-se toda a cidade na construção de uma obra útil àquele lugar – uma ponte. Zé Celso descreve que nas ruas, os moradores – estimulados pela encenação – foram aos poucos pegando pedras e construindo a ponte que tirava a cidade, que era cortada por um rio, do isolamento. Os atores puxaram uma música e a cidade inteira começou a cantar enquanto se construía a ponte, a cidade inteira em um mesmo movimento de construção de algo real e necessário a todos.
Tal ponte simbolizou a passagem da representação para o ato além da encenação. Algo como que a superação do teatro enquanto imagem, fundando o ato teatral como transformação da vida dos homens. Essa ponte nos causou muito interesse, pois depositamos toda nossa força em criar intervenções teatrais que tenham esse mesmo sentido, ou seja, que quebrem a mera representação de um conflito, ou, por exemplo, a mera descrição da repressão à juventude.
O que nos traz à cena é a fome, mais do que a vontade de representar. O que nos traz à cena é a necessidade histórica de se pôr abaixo toda a representação, toda a mediocridade burguesa, sua cultura decadente, seus intelectuais vendidos, suas fábricas devoradoras de homens, suas cidades-shoppings-ruínas, toda a barbárie que avança e nos cerca dia-a-dia, destruíndo o futuro de centenas de milhões de jovens e trabalhadores no mundo inteiro.
É com essa perspectiva que nosso grupo montou o roteiro A JAULA. A JAULA, porque é uma imagem-simbólica dos ataques à juventude, mas que, sobretudo, faz referência a uma jaula real construída pelo diretor da faculdade de ciências sociais da USP no espaço dos estudantes para impedir o acesso ao “porão”, local onde ocorriam atividades culturais.
Queremos chegar em várias universidades e escolas para anunciar essa ofensiva à juventude e expor nesses locais um acontecimento, expor as contradições, as amarras, as diversas jaulas que aprisionam nossos sonhos, nosso futuro. Para isso ao final de cada intervenção de A JAULA exploramos um conflito latente no lugar, de modo que, o público se reconheça ali e possa intervir e participar ativamente daquele acontecimento, pondo abaixo a representação e inaugurando um ato de contestação política.
E logo na segunda intervenção de A JAULA o conflito aconteceu! Na PUC, extrapolamos os limites da encenação antes mesmo que ela acontecesse: foi necessário entrar à força na universidade com os figurinos, com os instrumentos musicais, com os tambores, com as caixas de som e com os próprios atores! Foi necessário para que a intervenção acontecesse dentro do campus Monte Alegre que o coro enfrentasse os guardas do campus, e empurrasse os portões da universidade, tamanha é a repressão às atividades estudantis!
Um corpo só, um todo uníssono, uma única força abriu os portões e deixou a manada avançar sobre a universidade!
A encenação então se iniciou ali, desde a preparação da nossa entrada na universidade, o próprio coro se constituiu antes mesmo do início da peça. O coro descia as rampas da PUC, em transe, empolgado pelo som dos tambores e pela vitória da entrada forçada, gritando “a puc é nossa”! Não houve Abelardo nenhum na representação nem na própria realidade que reprimisse e contivesse o coro. “A universidade entrou em colapso em algumas horas”, foi o comentário da própria reitora da PUC!
A experiência seguinte que realizamos levou ao limite a intervenção teatral e extrapolou de fato a representação. Foi na terceira vez em que encenamos A JAULA, na própria faculdade de ciências socais da USP, local no qual estava a jaula real. O conflito estava posto e a intervenção aconteceu...
No final da encenação, há um julgamento de um estudante, que comete o crime contra a universidade. Nesse momento entra o coro que começa a dançar e chamar a todos com versos da música Carcará. Com a força do Carcará de Bethânia iniciou-se uma polarização entre os estudantes e a jaula, mas de modo algum poderíamos esperar que os estudantes fossem se envolver tão intensamente, tão vivamente.
A representação, então, foi devorada! Criou-se a ponte que funde a arte à vida! Dezenas de estudantes enjaulados despertados pela música, pelo teatro e pela poesia que existe nos fatos avançaram sobre a jaula! E a jaula foi abaixo! Como em Mandassaia “foi um acontecimento e não um teatro”.

somos o carcará, que pega, matá, come
contra as belas e feras do teatrão
contra a universidade-shopping
contra a escola-prisão

por uma frente de produção e criação nas escolas, universidades, teatros, ruas JÁ!

 

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